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Não paramos o trânsito: somos trânsito PDF Imprimir E-mail
Escrito por José Neto   
Ter, 24 de Novembro de 2009 14:04

Quando vim morar na Baía de San Francisco, não demorei para conhecer uma tradição da cidade: a Critical Mass, ou “massa crítica”, a mais anárquica manifestação de que já participei. Minha primeira foi em setembro de 2007, quando o “evento” completava 15 anos. Pegamos nossas bikes e fomos participar.

Funciona assim: toda última sexta-feira de cada mês, às 6 da tarde, ciclistas da cidade inteira se encontram em uma pracinha (em frente ao Ferry Building). Eles se concentram lá, vão se acumulando, até que alguém começa a buzinar. As buzinas vão se espalhando, a praça vira uma barulheira e aí, de repente, alguém começa a pedalar e os outros vão atrás.A massa crítica foi atingida. Não há roteiro definido. Quem estiver na frente decide onde virar, quem vier atrás segue. O prefeito não gosta (tive a chance de participar de uma entrevista com ele, e ele suspirou desanimado quando eu disse que costumava participar). A polícia não gosta. A maioria dos motoristas não gosta. O trânsito fica uma loucura. Mas é uma das muitas tradições esquisitas desta cidade esquisita e ninguém consegue acabar com ela. Acusam os ciclistas de parar o trânsito. Os ciclistas respondem que não param o trânsito: eles são o trânsito.

Para nós, ciclistas, é uma delícia. Uma vez por mês, pelo menos por alguma horas, a cidade é nossa. As ruas são tomadas por gente fantasiada em bicicletas estranhas. Muita gente carrega caixas de som e a música toma as ruas. O Critical Mass é tão legal que, ao longo dos últimos 17 anos, foi lentamente se espalhando pelo mundo. Hoje acontece em bem mais do que 300 cidades, incluindo quase todas as maiores cidades brasileiras (aí ele chama “bicicletada”).

 

familia

 

Mas, afinal, o que é o Critical Mass? É uma manifestação, uma passeata, um protesto, uma festa, uma invasão? Morria de curiosidade e não encontrava resposta para essas perguntas. A imprensa mal tratava do assunto. Aí encontrei um livrinho, e o organizador era o Chris Carlsson, parte do grupo que começou a história, em 1992. Acabamos conhecendo o Chris por acaso, e ele nos contou todas as histórias.

Da direita para a esquerda, minha mulher Joana, Chris e a mulher dele, a mexicana Adriana

A partir da dir., minha mulher Joana, Chris e sua mulher, a mexicana Adriana

O Chris é uma enciclopédia de contracultura e de conhecimento da história desta cidade. Editor e escritor, ele tem uma porção de livros sobre ecologia urbana, história dos movimentos sociais, mudança na relação com as cidades. Esta semana aparecemos na casa dele com uma garrafa de cachaça (ele é apreciador) e em troca ganhamos um belo jantar mexicano e uma caminhada guiada pela cidade. Não foi um tour comum: em vez de cartões postais vimos jardins comunitários, ruínas, espaços públicos tomados a força e outras relíquias da história da resistência dos moradores de San Francisco contra a morte da alma da cidade. O Chris contou que em meados do século 20 houve um projeto para aterrar toda a baía de San Francisco. A cidade viraria uma planície suburbana, sem fog nem ventania, com casas grandes e quintais: igual a qualquer cidade americana. Os moradores se organizaram e mataram a ideia. Para manter San Francisco estranha.

Hoje há gente pedalando em todos os cantos de San Francisco, a qualquer hora do dia ou da noite. As ciclovias e faixas compartilhadas estão por toda parte. Motoristas respeitam os ciclistas e reconhecem que eles ajudam a reduzir o trânsito. Todas essas conquistas devem um pouquinho à Critical Mass, que 17 anos atrás começou a colocar essas questões em discussão.

Por Denis Russo Burgierman
 

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